Esquecido, mirrado e abandonado, esse blog foi vítima dos males contemporâneos: excesso de atividades de seu dono. Um projeto de pesquisa cabuloso (que ainda não foi devidamente defendido), aliado a uma puxada rotina em minha querida empresa, acabou me afastando das atividades blogueiras por um tempo.
Mas sorriam, caros vizinhos, entregadores de panfletos e telefonistas da LBV: estou de volta!
Meu post de retorno não será tão colossal quanto a despedida da Oprah (porra, foi uma semana só de despedida!), tampouco magistral (haha) como a temporada do Ronaldinho Gaúcho. Será breve e maroto como aquele punzinho largado pelo seu colega durante uma reunião chata: você não sabe se ri, se inveja ou se fica puto.
O tema é um tema que está me emputecendo: discussão sobre descriminalização das drogas. Se o leitor achou que cover do Alejandro Sanz na Rua Augusta ou a insistência patológica de incluir ervilha nas pizzas portuguesas seriam os emputecedores escolhidos, também acertou – mas deixemos isso para um post sabático.
No dia 19/06, a Folha de S. Paulo publicou um editorial “Legalizar as drogas”, o qual foi, indireta ou implicitamente, reforçado pela opinião da colunista Fernanda Mena.
Pelo bem da transparência, antes de apresentar tais posições divulgo a minha: sou totalmente contra.
Unindo editorial e coluna, resumi em tópicos os principais argumentos :
a. A guerra contra as drogas custou/custa/custará muito caro, não vem surtindo muito efeito e poderia ser melhor empregada na prevenção ou recuperação de dependentes;
b. Maconha oferece aos seus consumidores os mesmos danos que tabaco e álcool, logo, deveria ser tão legal e “regulado” quanto;
c. Personalidades, como Kofi Annan, Paul Volcker, FHC e Mario Vargas Llosa, apóiam a legalização;
d. “Estudos” demonstram que o uso da maconha tem menor potencial de causar dependência (9%) que álcool (15%) e tabaco (32%);
e. Outros países, como Holanda e Portugal, já liberaram o uso; e
f. As pessoas merecem ter liberdade sobre o que fazem com sua saúde/vida.
Meu objetivo com este post é, simplesmente, compartilhar a leitura crítica que fiz (e que costumo fazer em qualquer coisa que leio). Questão de sobrevivência intelectual.
Sou contra qualquer tentativa de regular a imprensa: ela é quem expõe as escorregadas do poder. Mas me preocupo com: “e quem expõe as escorregadas da imprensa?” É aí que entra nossa massa crítica.
Chega de papo. Vamos aos argumentos utilizados e algumas reflexões que este modesto servo do capitalismo selvagem considera relevantes:
Reflexões sobre o argumento A:
1. Qual o embasamento para a afirmação da falta de efetividade? Quais os métodos utilizados para simular a demanda em caso de legalização? O que pode acontecer, em termos de um “epidemia” de uso, por exemplo, de crack ou heroína (nas casas, nas famílias, nas escolas, nas empresas)?
2. Quanto seria o custo necessário para “prevenir e recuperar os dependentes”? Qual seria o custo necessário para fiscalizar (ministérios, inmetro etc) a venda legal da maconha?
3. Como garantir que o dinheiro economizado (espalhado em tantas áreas, setores e rubricas distintas) seria revertido para prevenção e recuperação?
4. Se o sistema público de saúde não dá conta de atendimentos básicos e emergenciais, dará conta de atender procedimentos complexos e mais demorados como os necessários para recuperação de dependentes?
5. Como ficaria o relacionamento institucional com os países em que não é permitido produzir e consumir? Brasil se transformaria num pólo exportador de drogas? Pólo importador? Cartéis de drogas enriqueceriam?
6. Quais são os resultados obtidos com as atuais práticas de prevenção e recuperação?
[PAUSA PARA O VINHO: BLOGUEIROS AMADORES TAMBÉM BEBEM CARMENÉRE]
Reflexões sobre o argumento B:
1. Não há consenso científico sobre essa afirmação, tampouco sobre os males causados pela maconha.
2. O fato de termos algo que faz mal e nos gera problemas é justificativa para autorizarmos outra nos mesmos moldes? Não deveria ser o contrário?
3. Os seres que respiram sabem que, ao menos no Brasil, as regras sobre venda de tabaco/alcool para menores de 18 anos são totalmente desrespeitadas. Ou seja: mais uma substância proibida para menores nas mãos (e bocas) de menores.
4. Ao legalizar apenas a maconha, não continuará havendo traficantes para vender as outras drogas?
Reflexões sobre o argumento C:
1. Com todo o respeito aos ilustres, mas o que um escritor (Llosa) e um economista (Volcker), por exemplo, entendem do assunto? (Não quero utilizar o estratagema schopenhauriano de desqualificar o autor e não a idéia, mas o editorial não defende a idéia e sim o autor)
2. Como garantir que não estão “advogando” em causa própria?
Reflexões sobre o argumento D:
1. A academia não aeita afirmações sem a devida menção às referências feitas e, mesmo assim, questiona sempre a veracidade de estudos mencionados. Quais estudos são esses? Quais métodos conduziram os estudos? Quais suas limitações? Há estudos que contrariam essas conclusões?
2. A menor dependência não está relacionada a seu caráter de ilegalidade? É razoável acreditar que álcool e tabaco são mais “viciantes” por serem mais facilmente consumidos, uma vez que estão à venda em qualquer esquina.
3. Alguém já fez os cálculos: de 100% que consome maconha/tabaco/álcool, qual a frequência de utilização de cada substância? Arrisco dizer que maconha tende a apresentar um número mais elevado.
[PIT-STOP MUSICAL-URINADO]
Reflexões sobre o argumento E:
1. O fato de dois (ou mais) países decidirem algo é sinônimo de que tal decisão é adequada ao Brasil? Diferenças sociais, educacionais, culturais e econômicas não devem ser levadas em consideração? Exemplo: gravidez na adolescência. Quais as diferenças percentuais entre Brasil, Portugal e Holanda? E quanto a acidentes de trânsito, evasão escolar, corrupção, violência doméstica? Tais diferenças não significam uma “maturidade/senso de responsabilidade” média inferior do Brasil?
2. Quais são os resultados obtidos pelos países em que houve legalização?
3. O que a legalização das drogas atrairia de turismo “narcótico”?
Reflexões sobre o argumento F:
1. Opa, então vamos tratar de eliminar FGTS (se posso ter a liberdade de usar drogas, não posso escolher o que fazer com meu próprio dinheiro?), do uso obrigatório de cinto de segurança, do capacete para motociclistas, da ida à escola e, claro, da proibição à eutanásia.
2. O consumo de drogas impacta realmente apenas a vida do próprio usuário?
3. Se alguém fumar 25 maços de cigarro, o que acontece? E se alguém fumar 25 pedras de crack? E se alguém injetar 500 gramas de cocaína?
Em resumo:
a. Jornalistas: sigam a cantilena científica – ao citar “estudos”, apresentem as fontes, o método utilizado, eventuais estudos contrários;
b. Formuladores de políticas públicas: simulem os efeitos de suas propostas, façam testes de sensibilidade com dados extremos e considerem as peculiaridades de cada local;
c. “Celebridades”: sejam responsáveis ao emitir sua opinião. Lembrem-se que há pessoas que seguem suas opiniões sem refletir muito a respeito.
d.Dono do restaurante que comi com a Joice há pouco: não é legal ter repolhos e cenouras grudadas no sashimi.
Até a próxima!
ps: por amor à espontaneidade e rusticidade, o texto vai sem revisão. Eventuais erros de digitação serão convertidos em auto-flagelação matinal (flexões e abdominais).






